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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Reflexão sobre o texto 'O pensamento de Paulo Freire na formação de educadores", de Maria A. Zanetti

Estudo do texto: 

O PENSAMENTO DE PAULO FREIRE NA FORMAÇÃO DE EDUCADORES: REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E A FORMAÇÃO DE LICENCIADOS EM PEDAGOGIA

1. Contextualização da temática 

Tripé do papel da universidade: ensino, a pesquisa e a extensão. 


Objetivo deste estudo: Apresentar algumas reflexões inerentes, preponderantemente, ao ensino. 

Na formação de professores da primeira etapa do Ensino Fundamental e de pedagogos no Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná, a partir de sua reformulação curricular em 1996, introduzem-se duas disciplinas obrigatórias - Fundamentos da Educação de Jovens e Adultos, no primeiro ano e Estrutura e Funcionamento da Educação de Jovens e Adultos, no terceiro ano. 

No estudo dos fundamentos teórico-metodológicos, do histórico e das políticas educacionais para a Educação de Jovens e Adultos, o pensamento de Paulo Freire apresenta-se como fundamento balizador, tendo em vista a influência das idéias de deste autor, no que se refere, dentre outros, à alfabetização de adultos, a educação popular, bem como, a sua participação na gestão educacional, vivida diretamente por ele na administração da educação na cidade de São Paulo, em que demonstra, claramente, a não neutralidade da educação e de seus envolvidos, ou seja, a sua politicidade. Mostra também, que a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa e como tal, pode contribuir, numa perspectiva progressista, para a transformação da sociedade na qual se insere. 

Além disso, a atualidade de sua Pedagogia, se afirma porque se reconhece nela a importância da consciência, que porém, não é vista (...) como fazedora arbitrária do mundo; é a importância manifesta do indivíduo, sem que se lhe atribua a força que não tem; é o peso, igualmente reconhecido, em nossa vida, individual e social, dos sentimentos, das paixões, dos desejos, do medo, da adivinhação, da coragem de amar, de ter raiva. É a defesa veemente de posições humanistas que jamais resvalam em pieguismos. 

É a compreensão da história em cujas tramas o livro procura entender o de que fala, é a recusa a posições dogmáticas sectárias, é o gosto da luta permanente, gerando esperança, sem a qual a luta fenece. É a oposição (...) contra os neoliberalismos que temem o sonho (...) em nome das adaptações fáceis às ruindades do mundo capitalista.” (FREIRE, 1992, p. 179 -180). 

*** Nesta citação, Freire refere-se ao livro Pedagogia do Oprimido. Porém, entende-se que é possível estender as explicações de sua atualidade para as demais obras do autor.

A educação se materializada na relação entre professor e aluno. De modo que não há um educador, se não há um aluno. Une-se teoria a prática, e assim constitui-se o processo educacional, bem como os resultados obtidos.


Grande diferencial de Paulo Freire, principalmente - Desenvolveu  e estudou teorias, aplicou-as na vivência do ensino de EJA. Professor + aluno = sujeitos ativos no processo ensino aprendizagem, não são objetos um do outro. O professor não só ensina e o aluno não só aprende, esse processo é feito por troca. Ensinar não é simplesmente transmitir conteúdos.

O foco: quais exigências direcionadas ao processo de ensino?

Criticidade - tanto do professor quanto a ser gerada ao aluno. Quando pensamos no aluno, o professor deve valorizar conhecimentos prévios, baseado em experiência e processos formais (escola). O conhecimento formal  e experiências se complementam. O educando parte do senso comum (visão ingênua da realidade) e parte para a visão epistemológica (mais racional, crítica).

Rigorosidade metodológica de Paulo Freire - fidelidade do professor com princípios de ensino, lançar desafios pata capacidade crítica. Ofereço objeto aparentemente pronto e o provoco! Estímulo a um novo olhar.

Pesquisar - criticar - buscar o novo, novos conceitos, novas estruturas de pensamento, quebrar paradigmas, quebrar imposições sociais dominantes. É um desafio importante!

Focar no diálogo e não em memorização. Não consumir a risca as matérias do currículo escolar, fugir do senso comum. Reestruturar pensamentos e quebrar ideologias. A partir de pesquisa e estímulos, desafio educacional é não limitar aprendizagem, tanto aluno quanto professor.

Pedagogia de tendência progressista: Aprender a aprender, construir conhecimento, preparar o aluno para transformar a sociedade. Diálogo com os educandos, ter uma abertura ou canais de comunicação.  Com intuito de possibilitar a expressão, permitindo a consideração e expressão de saberes construídos pelos alunos em suas comunidades. O que permite ao educador, conhecer esse alunos, valorizar suas experiências, sua história de vida, seus saberes prévios, seus problemas, aspectos que consideram importantes, o que ele almeja. Isso auxilia o aluno a buscar seus sonhos, é um suporte necessários para novas conquistas. O professor precisa ser humilde e o aluno precisa ter esperança.

Estética e ética - ao ensinar, o professor tende a dar uma educação moral. No quesito ética+moral, pode-se buscar humanidade, o que influencia nas atitudes do educando. Uma reflexão para que ele se aproprie de valores indispensáveis a vida humana. Isso também é ensinado na escola, não impondo moralismo.

Ensinar é dar exemplo - o professor precisa ser um espelho! Se o professor quer ensinar o aluno a ser um leitor, ele também tem a obrigação de ser, se exige do aluno a capacidade de ser um bom escritor, do mesmo modo, o professor também tem que ser um bom escritor. E se exige a capacidade crítica, não há como fugir dessa obrigação. 

Discriminações de quaisquer tipo devem ser banidas, o educador deve ter cuidado com os preconceitos implícitos na fala. O ambiente deve ser propício para a permanecia do aluno, pois se o educando sente-se ferido, vai ocasionar evasão. Portanto, deve-se promover o acolhimento.

Indivíduo reconhece sua situação -  Pensamento crítico da realidade, auto avaliar-se quanto ao preparo para lidar com diversidades. Rejeição à discriminação, valorizando diversidades. Discriminação ocorre de diversos modos (cultural, étnica, opção sexual, nível de aprendizado, etc). O professor deve ser crítico e humilde, dar esperança.

Curiosidade Epistemológica - buscar todos os fundamentos científicos que amparam o ensino aprendizagem. Discutir, debater, ir além de observação, ter curiosidade, buscar novos desafios a partir da pesquisa , desconfiar o determinado objeto. Professores decoram aula e todos percebem, o ideal é domínio de conteúdo para articular com discussões e problematizar o que pesquisou. Aprofundar a capacidade de síntese, coesão, compreensão.

Com tudo isso, discutir a educação brasileira em geral e a Educação de Jovens e Adultos em particular, em um curso de licenciatura não pode prescindir de apresentar e discutir as idéias de Paulo Freire, tomado a partir da leitura de suas obras e não apenas a partir do que sobre ele foi escrito. 

1.2 O Curso de Pedagogia: 


Reflexões sobre o perfil dos alunos 

Antes de apresentar um dos trabalhos desenvolvidos a partir das idéias de Freire, nas disciplinas sobre a Educação de Jovens e Adultos, considero fundamental caracterizar, embora grosso modo, o perfil dos alunos e alunas com os quais trabalhamos no Curso de Pedagogia, no que se refere à formação e inserção profissional. 

Relato da autora: Em 1997, a Secretaria de Educação do Estado do Paraná implantou, de forma compulsória, o Programa de Expansão, Melhoria e Inovação no Ensino Médio do Paraná - PROEM, a partir do qual as matrículas neste nível de ensino seriam feitas, exclusivamente, em cursos de educação geral, proibindo-se, desta forma, as matrículas em cursos de Ensino Médio profissionalizantes, inclusive nos cursos de Magistério em escolas estaduais. Com isso, muitos alunos, quando ingressam no Curso de Pedagogia, não tem mais a formação em nível médio no Magistério e tampouco atuam na área educacional – escolas públicas ou particulares.

LEIS DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO  BRASILEIRA  – LEI 9.394/96.  


O texto da LDB, Lei nº. 9394/96, exige, para a atuação docente na Educação Básica, a formação em nível superior, admitindo para o exercício do magistério na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. Esta exigência pode elevar a demanda pelo Curso de Pedagogia.

É ela o norte de toda a educação brasileira, inclusive da rede privada. E estabeleceu no capítulo II, seção V a Educação de Jovens e Adultos. No artigo 37 infere que “A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou oportunidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria”. Ou seja, garante uma educação inclusiva e compensatória, promovendo assim o princípio da universalidade. 

A EJA é uma política educacional, porém deve ser compreendida também como uma política social. O parágrafo 2° deste artigo, refere ao estímulo ao acesso da população à essa modalidade educacional, assim como oferecer condições de funcionamento dignas para que sejam de fato efetivados os seus objetivos que são os de inclusão social e melhoria da qualidade de vida pessoal e profissional dos educandos.

1.3 A Educação de Jovens e Adultos como demanda a EJA

Embora reconhecida como Educação Básica no parecer do professor Carlos Jamil Cury, sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA, do Conselho Nacional de Educação, é preterida de financiamento, devido ao veto presidencial à contagem das matrículas dos jovens e adultos para fins de repasse dos recursos do FUNDEF. A Educação de Jovens e Adultos enquanto demanda, persiste na educação brasileira pois, segundo o censo de 2000: aproximadamente 14 milhões de brasileiros encontram-se no analfabetismo absoluto; a defasagem idade-série corresponde a 41,7%; a taxa de repetência está em 21,6%; a taxa de evasão escolar é de 4,8%. Segundo Paulo Freire, caracterizando-se muito mais como expulsão.

Acesse : O FINANCIAMENTO DA EJA NO BRASIL: REPERCUSSÕES INICIAIS DO FUNDEB

Além disso, o não acesso ou acesso precário das populações do campo à escolarização inicial e principalmente à continuidade dos estudos, fato este que também repete-se nas áreas urbanas, continua gerando jovens e adultos não escolarizados ou subescolarizados. Observando estes dados, verificamos, como afirma Haddad (1992, p.3), que a demanda por Educação de Jovens e Adultos, no caso brasileiro, “se constitui muito mais como produto da miséria social do que de seu desenvolvimento. É conseqüência dos males do sistema público regular de ensino e das precárias condições de vida da maioria da população, que acabam por condicionar o aproveitamento da escolaridade na época apropriada”. 

Nota: À época, no Estado do Paraná, eram mais de trezentas escolas de Ensino Médio com cursos de Magistério. Atualmente, em caráter experimental, funcionam em todo o Estado, apenas quatorze escolas de ensino normal. Conforme já apresentamos, com o PROEM implantado no Estado do Paraná, esta possibilidade não se estabelece, pois as matrículas para a formação de professores em nível médio está praticamente inviabilizada. 

Sérgio Haddad declarou sobre a EJA

“É uma educação para pobres, para jovens e adultos das camadas populares, para aqueles que são maioria nas sociedades do para aqueles que são maioria nas sociedades do Terceiro Mundo, para os excluídos do desenvolvimento e dos sistemas  educacionais de ensino.” (Encontro Latino-americano sobre no Encontro Latino-americano sobre Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores, Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores, Olinda, 1993)

Assim sendo, como afirma Pierro (1992, p.22), não tomar a Educação de Jovens e Adultos como uma das prioridades é um genocídio educacional ou um suicídio econômico, pois significa “... relegar à ignorância parcela tão grande da força de trabalho do país, ou ainda amargar décadas de atraso até que se formem novas gerações”. Porém o que vem ocorrendo em nosso país e, recentemente, de forma mais acentuada com a implementação de políticas neoliberais, é a crescente marginalização da educação de jovens e adultos. 

2. O pensamento de Paulo Freire e a Educação de Jovens e Adultos no Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná 

As disciplinas de Fundamentos da Educação de Jovens e Adultos e Estrutura e Funcionamento da Educação de Jovens e Adultos ministradas, respectivamente, no primeiro e no terceiro ano do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná, têm como programas para o seu desenvolvimento: a compreensão das concepções de EJA ao longo da história da educação brasileira; o pensamento de Paulo Freire e a Educação de Jovens e Adultos; as políticas educacionais e as legislações que estabelecem a EJA no Sistema Nacional de Educação, principalmente aquelas relacionadas à década de 90, a compreensão dos determinantes políticos, econômicos, sociais das condições de vida da população, bem como, as condições de acesso e permanência na escola. 


Além disso, o entendimento do que significa para um jovem e adulto não ser alfabetizado ou estar subescolarizado, seus saberes, sua compreensão de escola, a interiorização da culpa por não haver se escolarizado quando criança, na idade correspondente a série regular.

O conhecimento de diferentes formas de organização da EJA, buscando atender as demandas desses jovens e adultos por escolarização, também é outro conteúdo necessário à compreensão desta modalidade educacional. Neste processo de trabalho com os conteúdos inerentes a Educação de Jovens e Adultos daquelas disciplinas, tem sido fundamental conhecer o pensamento de Paulo Freire, o quanto influenciou e influencia nas reflexões e práticas educacionais e, mais especificamente, na compreensão do trabalho pedagógico, enquanto professor ou pedagogo progressistas. Assim, nestas disciplinas, buscou-se delimitar para o estudo, algumas obras de Paulo Freire, tomando como critérios para a sua escolha, a temática e o momento histórico de sua elaboração.
Os livros de Paulo Freire escolhidos para o estudo de alunos, alunas e professora foram: Educação como prática da liberdade; Pedagogia do oprimido; Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido, Educação na cidade e Pedagogia da indignação.

Para Freire (1992), a leitura exige uma postura crítica e aberta, radical e não sectária, exige disciplina e rigor, além da paixão de conhecer. A construção desta postura diante do estudo de um texto é uma exigência na formação de educadores com competência e compromisso.

2.1 Paulo Freire: obras escolhidas 
Breve apresentação da caracterização das obras ( que justificam a escolha)

O primeiro livro de Paulo Freire, Educação como prática da liberdade, publicado em 1967, foi escrito logo após a queda de João Goulart da Presidência da República. Neste período, Freire participava como coordenador do Plano Nacional de Alfabetização. Esta obra discute as contradições da realidade brasileira, vinculadas aos problemas do desenvolvimento econômico, a falta de participação popular neste desenvolvimento, a condição antidemocrática e a necessidade de inserção crítica do homem brasileiro no processo de democratização. Freire, preocupa-se em encontrar respostas no campo pedagógico para as condições daquele momento da sociedade brasileira. Discute alternativas no processo educativo, basicamente na alfabetização de adultos, que busquem contribuir na inserção crítica do homem no processo de democratização em contraposição à massificação. Para tanto, além de criticar o formalismo mecanicista das práticas de alfabetização que negam qualquer processo de conscientização, critica também a educação brasileira na sua forma bancária de ser. 

A Pedagogia do Oprimido foi escrita no período de exílio de Freire no Chile, entre 1967 e 1968. Sua primeira edição saiu em inglês em 1970 e somente em 1975 pôde ser impressa em português. Nela, Freire discute o caráter radical da tarefa revolucionária; a problematização e a dialogicidade dos processos de construção da subjetividade, da educação e da realidade; reflete sobre os antagonismos entre a pedagogia do opressor enquanto educação bancária e a pedagogia do oprimido, enquanto educação conscientizadora e libertadora; a desumanização e humanização de homens e mulheres.

A Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido é uma obra com características biobibliográficas. Nela, Freire revisita, relê e revê as tramas em que a Pedagogia do oprimido teve suas origens e que se imbricam com a sua própria história – a docência, o trabalho no SESI, o exílio, os vários países porque passou, seus encontros e aprendizagens com trabalhadores do campo e da cidade, com militantes de movimentos sociais, com outros intelectuais, com sindicalistas, educadores, amigos e com a família. Retoma e relê, também, as tramas e acontecimentos que se desdobraram a partir de sua publicação. Na retomada das origens e dos desdobramentos que se seguiram a publicação da Pedagogia do Oprimido, Freire atualiza, reafirma e revê suas reflexões. Além disso, analisa e responde algumas críticas feitas à Pedagogia do Oprimido na década de 70, salientando a importância de criticar, porém a necessidade de fazê-lo de forma rigorosa e ética. Freire reafirma, neste livro, a defesa do radicalismo crítico e se posiciona contrário aos sectarismos. Chama a atenção para a necessidade da unidade na diversidade na construção da práxis libertadora. 

Na prática educativa progressista - afirma a necessidade do diálogo, do respeito ao saber e a linguagem de senso comum, da problematização, da amorosidade.

Considera a educação - um processo diretivo e político.

A concretização da humanização, enquanto vocação ontológica dos seres humanos é, para Freire, processo que não se faz sem utopia e sem esperança.

Educação na Cidade é um livro em que Paulo Freire responde, em várias entrevistas, sobre o trabalho desenvolvido como administrador público na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, entre 1989 e 1991. Freire mostra que, com um projeto claramente definido e implementado a favor da escola pública e democrática, é possível “mudar a cara da escola”. Sintetiza como objetivos básicos deste trabalho: a democratização da gestão através da participação de toda a comunidade escolar, principalmente, pelos conselhos de escola; atendimento das demandas, democratizando o acesso à escola; garantia da  permanência dos alunos na escola, através de uma nova qualidade de ensino com a construção coletiva de um currículo interdisciplinar e a formação permanente dos docentes, que se funda, sobretudo, na reflexão sobre a prática; buscar a eliminação do analfabetismo.

Pedagogia da indignação divide-se em duas partes:

  • a primeira delas são “cartas pedagógicas” escritas por Freire pouco antes de morrer. Nas cartas pedagógicas discute a contribuição dos processos educativos, na escola e na família, para a autonomia da criança e dos jovens. Discute a necessidade da liberdade em sua formação, sem que ela vire licenciosidade e a necessidade da disciplina, dos limites, sem que estes se transformem em autoritarismo. Resgata a experiência histórica dos Sem Terra em sua busca por eticizar o Brasil e no direito e o dever que todos temos de mudar o mundo. Diz Freire o “futuro não nos faz. Nós é que nos refazemos na luta para fazê-lo” (2000, p.56) e conclama a todos e a todas para, “em marcha”, ampliarmos e consolidarmos a democracia. Em sua última carta pedagógica, mostra sua indignação com o assassinato do índio pataxó, Galdino Jesus dos Santos, em Brasília. Afirma ele, “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor” (2000, p.67). 
  • segunda parte, denominada “outros escritos” são cinco textos – quatro deles escritos em 1996, para conferências ou para publicação em livros, e um intitulado “Descobrimento da América”, em 1992. Nestes escritos, discute as relações entre miséria e alfabetização, os desafios da educação de adultos frente a reestruturação tecnológica e a mídia televisiva. Fala também da denúncia mas também do anúncio, da utopia, do sonho e da esperança e de como a educação pode contribuir nesta construção. 
2.2 Paulo Freire e a formação de educadores: contribuições, percepções e reflexões dos alunos do Curso de Pedagogia

O estudo de livros de Paulo Freire, pelos alunos e alunas da licenciatura em Pedagogia, conforme registro de seus relatos, os tem levado a conclusão, como Freire ensina, que a educação exige pesquisa, alegria, esperança, a convicção de que a mudança é possível e também que a educação é uma das formas de intervenção na sociedade e que eles, como futuros docentes e pedagogos tem um papel fundamental a desempenhar na educação e particularmente na escola. 

Relato das conclusões pessoais escritas, de alunos e alunas do primeiro ano do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná, na disciplina Fundamentos da Educação de Jovens e Adultos que, no primeiro semestre de 2001, estudaram obras de Paulo Freire. 
N.A.: Por opção, não farei comentários a estas conclusões, por entender que as mesmas, por si só, explicam a contribuição de Freire na sua formação.

Depoimentos :

“O livro Pedagogia da esperança foi a primeira obra de Paulo Freire que li na íntegra, só havia lido artigos e citações sobre seus pensamentos. Sempre tive a esperança de ter uma escola diferente da que se tem, uma escola que se responsabilize pela educação, que reconheça que todos são capazes de aprender e de adquirir conhecimentos além dos que já possuem, em que professores e alunos aprendam numa troca mútua de saberes. E ao ler esta obra, pude perceber o compromisso e o papel de cada um nesta mudança. Confesso que a cada página que lia, me interessava ainda mais. O que mais me chamou a atenção, foi o discurso daquele operário que, com seu jeito simples expôs sua compreensão do mundo, a qual nos vale deter como aprendizado. Além do mais a obra é toda feita de aprendizados para a nossa vida.” (Luciane) 

“ Apesar de já ter feito magistério, essa foi a primeira vez que li um livro de Paulo Freire na íntegra. No começo não gostei muito, pois tinha a impressão que ia ser chato e monótono. No decorrer do livro fiquei muito impressionada com as experiências vividas por ele e me chamou a atenção sua teoria pois, durante as aulas que tive no semestre, me interessei muito pela educação de jovens e adultos.” ( Simone) 

“Esta foi a primeira obra de Paulo Freire que eu li, mas com certeza fiquei bastante motivada a conhecer suas outras obras, visto que ele tem uma maneira muito simples e verdadeira de falar de temas bem atuais e bem próximos da nossa realidade. Conhecer as suas idéias foi muito positivo para mim, como pessoa e como profissional. Agora tenho certeza de que conhecer o trabalho de Paulo Freire é muito importante para a formação de qualquer profissional da área de educação, visto que ele nos leva a pensar na real necessidade que temos de nos definir politicamente e trabalharmos em coerência com a nossa opção. Hoje tenho ainda mais claramente a ideia de que a mudança do nosso sistema educacional para um sistema mais justo, democrático e que realmente atenda a todos os indivíduos da sociedade, é possível. Desde que tenhamos consciência de que a mudança não ocorre de um dia para o outro, que a mudança implica em deixarmos todos os envolvidos participarem e que a permanente formação dos professores é algo fundamental.”(Sirlei) (Educação na Cidade). 

“O que mais nos chamou a atenção foi a questão da conclamação para a concretização desta utopia que é a democratização da sociedade brasileira, através do amor, da indignação e da esperança. Dentre as várias frases lidas neste livro a que mais chamou atenção foi: “mudar é difícil, mas é possível”. (p.81). Enfim, após a leitura deste livro, percebemos que mudar realmente é difícil (deve ser de forma gradativa), mas não é algo impossível; por isso se cada pessoa que ler este livro, começar a mudar, a educação com certeza irá melhorar (...) A educação de nossos filhos e de nossos alunos torna-se um desafio sempre maior, diante da magnitude crescente dos problemas que o mundo atual nos propõe. Daí, então, que a nossa presença no mundo, implicando escolha e decisão, não seja uma presença neutra, porque a acomodação é a expressão da desistência da luta pela mudança.” (Fernanda, Márcia e Marieta) (Pedagogia da Indignação). 

“Confesso que para gostar de ler Paulo Freire tive que recomeçar o livro, e lê-lo três vezes. Na terceira leitura me peguei encantada com a luta de Freire não só pela educação, mas pelo mundo inteiro. Descobri a paixão de Freire pela humanidade e sua incansável busca na esperança de mudança. Com Freire aprendi o verdadeiro valor da educação e o que significa educar, que não é apenas cartilha mas é o mundo, a leitura de mundo, como ele tantas vezes disse. (...) Espero que o amor de Freire através de seus livros passe e transforme a nossa sociedade, espero que meus filhos possam crescer sob a liberdade da autoridade, e possam aprender com professores e professoras apaixonados pela educação tanto quanto Paulo Freire foi.” (Luciane) (Pedagogia da Indignação) 

“Durante o curso de Magistério não tive a oportunidade de ler Paulo Freire, o autor nem era mencionado, só tomamos conhecimento de sua existência porque seu falecimento foi durante o curso. No entanto, ao ler a primeira carta já me apaixonei pôr ele, seu vocabulário é simples, o que facilita muito a compreensão do livro. Paulo Freire se concentrava nos problemas sociais, nas suas essências, ele criticava o que tinha de ser criticado e o melhor, apontava soluções, porque mais importante que apontar o problema é tentar resolvê-lo. Antes de ler o livro tinha muito preconceito com relação ao MST, ao ver as reportagens na televisão sobre invasões, sempre defendia os fazendeiros. Agora mudei de opinião radicalmente, primeiro porque a televisão transmite o que convém sobre o MST e segundo porque os agricultores têm direito e dever de lutar para conseguir sua terra para trabalhar, eles são vítimas da má distribuição de renda e terras, são vítimas de um atraso na reforma agrária. Realmente o livro mudou muito a minha opinião sobre os sem-terra, eles sim são vencedores porque lutam contra a dominação, O que me deixa até assustada é que se não lesse o livro talvez ainda estivesse pensando de forma preconceituosa.” Márcia (Pedagogia da Indignação). 

“Sempre tive a concepção de que a educação deve ser neutra, desvencilhada de concepções políticas. Foi justamente isso que mudou em mim através da leitura da Pedagogia da Esperança. Paulo Freire nos deixa claro que não existe neutralidade na educação, todo discurso se reveste de concepções políticas sempre em favor ou contra algo ou alguém. Outro aspecto importante do livro é a concepção de oprimido e opressor. De como o oprimido se apropria do discurso do opressor e a formação crítica que o indivíduo deve ter para poder enxergar sozinho, livrando-se dos olhos do opressor. Como educador devo ter o cuidado para não cair no discurso do opressor e reproduzir as suas ideologias através de minhas atividades. Ser educador é comprometer-se, identificar-se, lutar pela causa dos desfavorecidos.” Valmir (Pedagogia da Esperança). 

“A leitura do livro foi de grande importância para o estudo dessa disciplina. De fato a leitura do um livro de Paulo Freire faz com que tenhamos uma visão mais ampla dos conceitos e idéias desenvolvidos por ele em todas as obras. Além da contribuição para a Educação de Jovens e Adultos, Freire consegue transmitir a sua grande paixão pelo ato de ensinar, de aprender sempre e de uma nova escola. As concepções de educação nos fazem pensar sobre o nosso papel de educadores e a grande função que temos de educar para transformar e formar cidadãos conscientes dessa transformação.” Caroline (A Educação na Cidade). 

“O educando se torna realmente educando quando e na medida em que conhece, ou vai conhecendo (...), e não na medida em que o educador vai depositando nele a descrição dos objetos, ou dos conteúdos.” (FREIRE, 1992, p.47) 

Desafios na formação docente 

Neste trabalho com alunos da graduação, uma questão de Paulo Freire, para nós formadores, deve sempre estar presente. 

“Como diminuir a distância entre o contexto acadêmico e a realidade de que vêm os alunos, realidade que devo conhecer cada vez melhor, na medida em que estou, de certa forma, comprometido com um processo para mudá-la? (FREIRE, 1992b, p.177) 

 A educação, enquanto diretiva e política, deve sempre respeitar os educandos, “possibilitar (...) o desenvolvimento de sua linguagem, jamais pelo blablablá autoritário e sectário dos ‘educadores’, de sua linguagem que, emergindo da e voltando-se sobre sua realidade, perfile as conjecturas, os desenhos, as antecipações do mundo novo.” (p.41). Porém esse respeito não significa que o(a) educador(a) deva omitir seus sonhos, sua utopia, sua “leitura de mundo”, embora deva salientar aos educandos que há outras “leituras de mundo”, diferentes e as vezes antagônicas a sua leitura. 

Outro desafio que Freire nos coloca como formadores-educadores se refere a aproximação entre a linguagem acadêmica e a linguagem que os alunos usam quando chegam à universidade. 

Afirma Freire: “a questão ... não é abolir, de nossa linguagem de professor ... palavras como ‘epistemologia’, ‘sujeito cognitivo’, ‘práxis’, ‘ideologia’... Não: esses conceitos são absolutamente importantes para nós!... A questão não é aboli-los, ou renunciar a eles, renegá-los, mas, isto sim, como usá-los de modo que se aproximem do concreto”. (FREIRE, 1992b, p.177)

Em um processo educativo dialético, como propõe Freire, fundado no diálogo, educadores e educandos são sujeitos do ato de conhecimento e a curiosidade de ambos, se encontra na base do aprender-ensinar-aprender, exigindo, para tanto, o exercício de uma séria disciplina intelectual. 

REFERÊNCIA

ZANETTI, M. A. O pensamento de Paulo Freire na formação de educadores: reflexões sobre a educação de jovens e adultos. Acesso em 11 de outubro de 2017. http://www.paulofreire.ufpb.br/paulofreire/Files/seminarios/mesa13-b.pdf

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire (Capítulo 1)

O livro Pedagogia da Autonomia discute um conjunto de saberes necessários aos empenhados em construir uma relação educativa transformadora, intra e extra muros escolares. Nesta postagem, pontuei passagens importantes do capítulo 1, através de levantamento de ideias como auxílio em meus estudos com referência em Paulo Freire.
"Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente, aos vinte e cinco anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. 
(Paulo Freire)
ÉTICA - RESPEITO À DIGNIDADE - ESTÍMULO À AUTONOMIA DO EDUCANDO

A leitura nos impulsiona a questionar a prática pedagógica autoritária


O EDUCANDO PRECISA SER PROTAGONISTA!

Educandos são sujeitos sócio-histórico-culturais!

Enfoque do livro Pedagogia da Autonomia (1996) - Uma postura flexível e amorosa facilitam a relação educador x educando, a fim de permitir um ambiente favorável à produção de conhecimento, é imprescindível ter coerência nas ações. Ressaltando que o medo apenas domestica ou doutrina, mas a relação de respeito amplia espaço para a troca e o compartilhamento de conhecimento e saberes.

ALERTAS
  • Necessidade de assumirmos uma postura vigilante contra todas as práticas de desumanização por intermédio da auto-reflexão crítica;
  • Cuidado para a força de seu discurso ideológico e para as inversões que pode operar no pensamento e na prática pedagógica ao estimular o individualismo e a competitividade;
  • A solidariedade enquanto compromisso histórico de homens e mulheres, como uma das formas de luta capazes de promover e instaurar a “ética universal do ser humano";
Esse livro leva a reflexão da formação docente, assim é imprescindível haver um exercício permanente de troca de saberes. Todos trazemos uma bagagem de conhecimento em amplo aspecto, que deve ser valorizado e respeitado. Alunos não podem ser apenas expectadores, devem ser ativos, críticos e questionadores. O docente deve ter uma postura vigilante, pois somos seres condicionados e não determinados, e compreender que educação não é apenas objeto ou bem de consumo.



Será que os educadores estão incentivando a prática de autonomia ou apenas estamos reproduzindo um velho modelo de adestramento, ignorando os conhecimentos prévios dos sujeitos? 

Responsabilidade ética no exercício da prática docente

Deve-se pensar e analisar qual a sua concepção pedagógica de ensino. Com base no enfoque da formação científica, ética, respeito, coerência de ações, capacidade de viver e de aprender com o diferente, não permitir que a antipatia quanto à determinadas pessoas se sobreponha, portanto são atitudes que requerem humildade e perseverança.

A defesa da ética universal do ser humano pactua com o respeito aos pensamentos distintos, pois cada indivíduo ou grupo tem suas ideias, ideais e conceitos. Todavia, não significa que deve desmerecer o de outros. Há um meio termo para as diversas situações, usar a ética e a diplomacia é crucial, pensando na ética como algo absolutamente indispensável à convivência humana.  

Ser humano é um objeto inacabado, passível de mudanças no decorrer do tempo, incorpora novos elementos em sua análise, assim revê suas concepções e pensamentos. 
O pensamento muda, transforma sob novos ângulos, ou seja, conhecimento é inacabado, incorpora novos elementos. Há muito a ser descoberto e inventado além do que já conhecemos. A humanidade sempre está se reinventando, seja pela cultura, pelas diversas linguagens, pela arte, ciências, religiões, inteligência, sensibilidade.

Se participamos da humanidade com nossas sensibilidade e inteligência relacionamos conhecimento com o mundo, nos humanizamos. Mas se apenas nos adaptamos, perdemos a oportunidade de nos humanizar. 

"É no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade."

NÃO HÁ DOCÊNCIA SEM DISCÊNCIA (indicotomizáveis) - Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa.

Paulo Freire reconhece que o conhecimento é algo inacabado. A ação educativa é a prática de compartilhar conhecimento. É fato que teoria e prática andam simultaneamente, e que devem ser conteúdos obrigatórios à organização programática da formação docente. Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.

Docência x Discência - as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. 

Explicação gramatical: Ensinar- verbo transitivo (quem ensina, ensina algo a alguém) - pede objeto direto (algo) e objeto indireto (a alguém)

Ao viver a autenticidade da prática ensino-aprendizagem: Para Paulo Freire, "participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a seriedade."

Sobre a “curiosidade epistemológica” - é construída pelo exercício crítico da capacidade de aprender.

Educador democrático - Na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão. esse sentido, alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. Para tal, implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores, instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes. Nas condições de verdadeira aprendizagem, os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo. A consciência crítica tem interesse na investigação da trama de relações, e parte do principio de que a cultura, o conhecimento e a historia são produtos humanos e que se transformam permanentemente da ação humana. (conhecimento do mundo x ensina com o mundo). O enfoque não é treinar alunos, decorrente do modelo que apenas adestra.

Ainda é comum nos depararmos com professores que apenas reproduzem o conteúdo didático, sem reflexão, sem criticidade, o que torna a aula um momento enfadonho e nada interessante. Memorizar para uma apresentação ou apenas para responder uma prova não garante o principal, o aprendizado. Não se deve subestimar a inteligência do discente, seja ele criança ou de mais idade. O que instiga a aprendizagem são os desafios propostos, a interação com o o autor-texto e a livre comparação com seu contexto de vida, a conexão com a realidade, e pensar além. Repetições mecânicas e visões literais aprisionam o sujeito, tolhem a liberdade do pensamento e a autonomia.



Projeto Político Pedagógico (PPP): Toda escola tem um planejamento com metas a alcançar, objetivos a atingir, além de sonhos a realizar. A soma destas aspirações e os meios traçados para tornar isso real, é transcrito no PPP. 

É denominado projeto, porque reúne propostas de ação concreta a serem executadas durante certo período de tempo. Político, pois no âmbito escolar, ocorre a formação de cidadãos conscientes, críticos e responsáveis, que serão sujeitos ativos individual ou coletivamente na sociedade provocando mudanças positivas ou negativas. Pedagógico, por definir e organizar atividades ou projetos de cunho educativos pertinente ao processo ensino-aprendizagem.

Quando os conteúdos do currículo escolar são selecionados, assim como a escolha do perfil do estabelecimento escolar, tudo é registrado no PPP. É um documento formal que toda escola deve possuir, embora muitos se restringem a apenas a utilizar teoria prontas copiada de outras já existentes, recheada de ideologias vazias, enquanto algumas exceções, respeitam a teoria em registro e executam na prática. É um documento vivo e eficiente na medida em que serve de parâmetro para discutir referências, experiências e ações de curto, médio e longo prazos.

Ao analisar os conteúdos das disciplinas, devemos ter em mente as seguintes questões (Learncafe)

1. O que a escola está ensinando?
2. Por que está ensinando tal conteúdo?
3. Qual a finalidade de ensinar isto?
4. Qual objetivo de aprende este conteúdo?
5. Qual sentido  de ensinar este assunto e não aquele outro?
6. Se há tantos conhecimentos no mundo e nem tudo cabe no currículo, quais critérios para selecionar os assuntos abordados?
7.  Quais valores incorporados nos livros didáticos?
8.  Há que os alunos são incentivados a fazer com os conhecimentos escolares? Ou são incentivados a não fazer nada?

Todo PPP  de qualquer escola é permeado por uma visão de mundo, e porquanto, por uma escolha política que privilegia um determinado conjunto de saberes, que necessariamente expressa um determinado conjunto de crenças e valores. Na escola democrática, os gestores, professores, alunos e suas famílias participam ativamente da redação e da revisão do PPP.

O que é preciso ter em mente é:  Que tipo de formação queremos para os nossos filhos?
A comunidade escolar é quem decide, porém quando a gestão da escola é autoritária, esse documento é regido por 'especialistas', sob discurso de neutralidade técnica, impondo seus próprios valores (a favor de alguns e contra outros).

"Neutralidade no ensino" - é questionável! Geralmente, quem faz uso desse termo, tenta ocultar posições ideológicas. Sabemos que toda educação é permeada de valores, e a neutralidade se faz a favor de uma escolha política.

Toda visão de mundo,parte de um ponto de vista

Como lidar com os condicionamentos ideológicos em sala de aula?
O rigor ético do educador deve condenar o cinismo, preconceitos, reproduções de ideias e opiniões de terceiros sem qualquer comprovação, acusações sem prova de que outro tenha expressado ideias e falas, imposição de falso testemunho para induzir a crença de outros numa falsa argumentação.
Esse tipo de situação é comum quando se trata de assuntos polêmicos, tais como discussões sobre religião, política, opção sexual, mitos, etc

A ética difere pureza e puritanismo, nem confunde respeito aos valores fundamentais da humanidade com moralismo.

Para Paulo Freire, moralismo é uma perversão da ética. E a única maneira de defender a ética na sala de aula, é por intermédio do exemplo. 

E como lidar com as divergências ideológicas na escola?
Paulo Freire responde que na maneira como lidamos com os conteúdos que ensinamos, no modo como citamos autores de cuja obra discordamos ou com cuja obra concordamos. Não podemos basear nossa crítica a um autor na leitura feita por cima de uma ou outra de suas obras. Pior ainda, tendo lido apenas a crítica de quem só leu a contracapa de um de seus livros. Posso não aceitar a concepção pedagógica deste ou daquela autora e devo inclusive expor aos alunos as razões por que me oponho a ela mas, o que não posso, na minha crítica, é mentir. É dizer inverdades em torno deles. O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com sua retidão ética. 

É importante que os educandos tenham acesso às várias interpretações dos fatos, nas mais diversas disciplinas, para que tenham condições de formular as suas próprias ideias. Conhecimentos não são petrificados. Ninguém sabe tudo. Os livros não trazem tudo. Não chegamos no ponto final do conhecimento. Nenhum saber deve ser absolutizado. Conhecimentos são pontos de partida. E uma boa formação se revela na capacidade de os alunos relacionarem, interpretarem e transformarem esses conhecimentos e aplicá-los em suas vidas. E para isso é preciso conhecer as divergências e ter consciência das contradições presentes em todo saber. Por isso é fundamental que os alunos percebam o respeito e a lealdade com que um professor analisa e critica as ideias e as perspectivas do outro.

Paulo Freire observou que toda e qualquer educação está permeada de valores, o discurso de neutralidade oculta uma escolha política a favor da permanência, sendo este um empenho deliberado para manter um determinado sistema de conhecimento, e consequentemente um determinado sistema social. Ressaltando que, muitas vezes, é uma forma de manter o sistema excludente que não abarca as diversidades e a universalidade garantida constitucionalmente. O PPP precisa ser flexível, aberto e acessível a todos.

Ensinar exige pesquisa - não há ensino sem pesquisa ou vice-versa

"Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade."

Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa.

Não há neutralidade na educação. O fato é que todo ensino está necessariamente carregado de ideologia, às vezes de forma explícita, mas na maioria das vezes de forma oculta.

Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos

A escola precisa compreender os valores dos sujeitos, assim como de classes populares. São saberes construídos nas práticas comunitárias, contextualizar saberes e vivências, assim como aproveitar experiências distintas do meio em que vivem os educandos, correlacionar os conteúdos das disciplinas curriculares com a realidade social de modo a estimular a criticidade e o papel social dos sujeitos, discutindo implicações políticas e ideológicas.

Ensinar exige criticidade

Manter a curiosidade, porém exercer a criticidade, evitando o excesso de racionalidade. Sendo esta curiosidade ingênua e desarmada, referente ao senso comum. Mas a curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta faz parte integrante do fenômeno vital. Portanto, não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e nos excita.

Ensinar exige estética e ética

Mulheres e homens são seres histórico-sociais! Nos tornamos capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir, de romper, por tudo isso, nos fizemos seres éticos. Abster-se da ética é estar em transgressão. Compreende-se que 'transformar a experiência em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador.'  Se há respeito a natureza humana, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando.

Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo
Corporeificação: dar corpo a palavra, fazer o que se fala

Para Freire, “pensar certo tanto implica o respeito ao senso comum no processo de sua necessária superação, quanto o respeito e o estímulo à capacidade criadora do educando." 

O que é pensar certo? "Pensar certo implica a existência de sujeitos que pensam mediados por objeto ou objetos sobre que incide o próprio pensar dos sujeitos." E mais, "a tarefa coerente do educador que pensa certo é, exercendo como ser humano a irrecusável prática de inteligir, desafiar o educando com quem se comunica e a quem comunica, produzir sua compreensão do que vem sendo comunicado. Não há inteligibilidade que não seja comunicação e intercomunicação e que não se funde na dialogicidade. 

O pensar certo por isso é dialógico e não polêmico."

Caminhos para pensar certo:
+ Busca seriamente o caminho da argumentação
+ Discorda do oponente sem nutrir sentimentos negativos pela oposição de pensamento
+ Aceitar a discordância

Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação

"A prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia."

Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática

A prática docente crítica (implicante do pensar certo), envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer. O pensar certo que supera o ingênuo tem que ser produzido pelo próprio aprendiz em comunhão com o professor formador. Na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática, a fim de obter melhora progressiva. 

Quanto mais o sujeito faz sua auto-análise, tem uma maior percepção sobre si e com isso, permite mudanças e quebra de paradigmas. Estar disposto a mudar, ciente de que mudanças provocam  rupturas, a necessidade de tomar decisões e novos compromissos.

Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural

Verbo assumir - verbo transitivo, pode ter como objeto o próprio sujeito que assim se assume.

Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações (entre si e com os educadores), ensaiam a experiência profunda de assumir-se, seja como ser social e histórico e como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque é capaz de amar.

O respeito é absolutamente fundamental na prática educativa progressista.



SOLIDARIEDADE - Como princípio das práticas pedagógicas

E MAIS, COLABORAÇÃO, GOSTO PELO RISCO E EXPERIMENTAÇÃO, ÉTICA

EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA!

EDUCAR É HUMANO!



Sinopse do livro: Na Pedagogia da autonomia, de 1996, Paulo Freire nos apresenta uma reflexão sobre a relação entre educadores e educandos e elabora propostas de práticas pedagógicas, orientadas por uma ética universal, que desenvolvem a autonomia, a capacidade crítica e a valorização da cultura e conhecimentos empíricos de uns e outros. Criando os fundamentos para a implementação e consolidação desse diálogo político-pedagógico e sintetizando questões fundamentais para a formação dos educadores e para uma prática educativo-progressiva, Paulo Freire estabelece neste livro novas relações e condições para a tarefa da educação.


REFERENCIA

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa / Paulo Freire. – São Paulo: Paz e Terra, 1996. – (Coleção Leitura)

Curso Learncafe - Pedagogia da Autonomia 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Como deve ser um bom livro infantil



Características de um bom livro infantil:

01. Ser instigantes e provocadores (quanto à temática). Temas atraentes instigam o leitor por si só.

02. Despertar o senso crítico das crianças e provocar discussões acerca do tema, promovendo a socialização.

03. Estimular a imaginação. Fazer o leitor viajar sem sair do lugar!

04. Ter boa qualidade gráfica (explorar diagramações). A fuga do senso comum é essencial.

05. Evitar diagramação histérica e ilustrações literais. Provocar uma análise, não poluir as páginas com o óbvio.

06. Permitir vários níveis de interpretação (interação com o texto). Tornar o leitor num agente ativo e interacionista.

07. Conter ética, estética e emoção (“Santíssima trindade”, segundo Tatiana Belink).

08. Estimular a criança a pensar por si só (levantar questionamentos). 

09. Estimular a curiosidade e a crítica.

10. Propor abertura e fechamento, pois ideias soltas não prendem atenção. 

11. Ter estética (bem escrito e com diagramação caprichada). Porque organização e criatividade são essenciais.

12. Ter acabamento gráfico primoroso. O conjunto da obra faz toda a diferença!

13. Gerar sentimentos diversos - compaixão, tristeza, curiosidade, excitação, esperança...

14. Ter linguagem sem pieguices e vocabulário rico. O leitor necessita de desafios! Considerar que aprender novas palavras faz parte.

15. Ter texto fluente, harmonioso e evitando o óbvio (linguagem trabalhada sem subestimar a capacidade do leitor).

16. Desperta a curiosidade e memórias. Fazer conexões com a realidade e o cotidiano tornam a leitura mais atrativa.

17. Ser atraente para todos as faixas etárias. Não importa se é para crianças, é importante cativar a todos os públicos

18. Evitar nomes e títulos óbvios.

19. Evitar moralizar a criança. O ensino de valores éticos e morais é de pais e responsáveis, essencialmente.

20. Evitar infantilização e excesso de diminutivos.

Diversidade: Entendendo a guerra na Síria

Grupo de estudo: 


A Guerra na Síria é tema do grupo de estudo em que participo na FSB-PR sob orientação da Mestra Marli Barros. O enfoque maior é dado à velha cidade de Aleppo. Para compreender esta história, realizei pesquisas acerca do tema utilizando o site Politize, informações da BBC e outros. Meu intuito é compreender as motivações políticas, consequências e interesses ligados a temática em questão. 

Aleppo, antes e depois. Imagem do site Tendencee

Mais imagens do antes/depois de Aleppo em: Tendencee

A Síria é governada pelo ditador Bashar al-Assad desde 2000 e pela família al-Assad desde a década de 1970. Apesar de não apoiarem o ditador, os cristãos, os xiitas e até parte da elite sunita preferem ver Assad no poder diante da possibilidade de ter um país tomado pelos extremistas. 

Uma das primeiras forças internas que se rebelou contra o governo sírio foram os grupos sunitas, que se opunham a Assad (que é xiita). Os sunitas têm dezenas de ramificações e ideologias, mas unem-se com o princípio básico de derrubar Assad. São chamados de “rebeldes moderados”, por não serem adeptos do radicalismo islâmico. A maior expressão entre eles é o Exército Livre da Síria (ELS). Grupos que atuavam nos protestos uniram-se aos militares desertores, representados pelo ELS, constituído por milícias armadas que objetivavam revidar a ação violenta do governo e expulsar as tropas do exército sírio de suas cidades. Todavia, Bashar Al-Assad não recuou e aumentou ainda mais a repressão no país.

Quanto às alianças externas, Assad conta com o apoio do Irã e do grupo libanês Hezbollah. Juntos eles formam um “eixo xiita” (seguem essa interpretação da religião islâmica no Oriente Médio). O grupo se opõe a Israel e disputa a hegemonia no Oriente Médio com as monarquias sunitas, lideradas pela Arábia Saudita. 

O principal aliado de fora é a Rússia, que mantém uma antiga parceria com a Síria. Tanto o apoio do Hezbollah e das milícias iranianas, quanto os bombardeios mais recentes realizados pelas forças russas têm sido fundamentais para a sobrevivência do regime de Assad e o seu recente fortalecimento no conflito.

Forças de segurança sob comando dos líderes dos países árabes continham os ditos rebeldes e o povo vivendo em dificuldades, tinha o dinheiro público monopolizado pelos poderosos que comandavam o país.

Entre os anos de 1950 e 1970, os países da região árabe mantiveram-se sob o comando de regimes repressores, os quais não permitiam a formação e desenvolvimento de uma oposição política. Assim, os movimentos islamistas aproveitaram o vazio provocado por essa limitação. 

Os protestos na Síria contra o governo de Bashar al-Assad foram motivados pela onda de protestos que se espalhou pelos países árabes a partir de 2010, em que pediam reformas no governo e  mais democracia. Também, que houvesse a instituição do pluripartidarismo em oposição ao governo autoritário e corrupto existente, criação de mais empregos, redução de juros para possibilitar a aquisição de itens básicos de necessidade pessoal e coletiva (ex.: alimentos), qualidade de vida para população, dentre outras solicitações.

Os protestos pró-democracia começaram em março de 2011, na cidade de Daraa, após a prisão e tortura de adolescentes que haviam pintado slogans revolucionários no muro de uma escola. E a batalha logo chegou na capital, Damasco. A repressão do governo de Bashar al-Assad foi violenta, os protestos espalharam-se por toda a Síria, inclusive em sua maior cidade, Aleppo, no ano de 2012.

O confronto militar em Aleppo foi iniciado em 19 de julho de 2012, como parte da Guerra Civil Síria. Marcado pelo uso de bombas de barril jogadas de helicópteros pelo exército sírio, ocasionou a morte de milhares de pessoas e causou a evacuação de centenas de milhares de outras. Esta batalha causou uma destruição catastrófica. 

Essa guerra é considerada um dos grandes desastres humanitários dos últimos anos.
"Moderados seculares hoje são superados em número por islâmicos e jihadistas, adeptos de táticas brutais que motivam revolta pelo mundo" (BBC).
Aleppo, já foi a capital econômica da Síria, virou o símbolo da guerra que devasta o país.

"Num primeiro momento, simpatizantes dos que se rebelaram contra o governo começaram a pegar em armas – primeiro para se defender e depois para expulsar as forças de segurança de suas regiões. Esse levante de pessoas nas ruas, lutando por democracia, faz parte de um movimento chamado Primavera Árabe e podemos dizer que esse processo culminou no início da guerra civil na Síria." (Politize!)

 Primavera Árabe: movimentos pró-democracia ocorridos em países do Oriente Médio e do norte da África que surgiram devido aos problemas demográficos e estruturais enfrentados pelos povos árabes.



Segundo a investigação conduzida pela comissão da ONU, liderada pelo brasileiro Paulo Sério Pinheiro, o regime do ditador Assad foi responsável pela tortura e morte de milhares de pessoas, inclusive crianças. Ele informou que não há dúvida de que soldados não conduziram essas operações sem o conhecimento de seus superiores. Pelas testemunhas que aceitaram falar com a comissão, está claro que as ordens de massacrar os protestos da forma que fosse necessária vinha da cúpula.

A ONU declarou que a guerra na Síria se intensificou de modo indiscriminado e desproporcional, tanto quanto as violações dos direitos humanos. Já são mais de 250 mil mortos. Já o Centro Sírio para Pesquisa Política fala em mais de 400 mil óbitos em decorrência do conflito.

Facções extremistas islâmicas, fragmentadas em diversos grupos, estão entre os que querem derrubar Assad . Uma das organizações que mais conquistaram terreno, principalmente nos primeiros anos do conflito, foi a Frente Al-Nusra, um braço da rede extremista Al Qaeda na Síria.

Em 2014, o Estado Islâmico dominou áreas na Síria e no Iraque, as denominou de califados (referindo-se aos antigos impérios islâmicos depois de Maomé, seguidores rigorosos das leis islâmicas).

O Estado Islâmico aproveitou o vácuo de representação por parte do governo, a revolta da sociedade civil e a guerra brutal ocorrida na Síria para fazer seu espaço, ocuparam metade do território sírio. Para isso, enfrentaram rebeldes e rivais jihadistas da Frente al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, bem como o governo e forças curdas.

Há os Curdos, uma etnia sem Estado e sem território próprios, constituídos por um grupo de 27 a 36 milhões de pessoas que vivem em diversos países, inclusive Síria. Eles reivindicam a criação de um Estado para o seu povo (Curdistão). Desde o início do conflito sírio, a Unidade de Defesa Popular (uma milícia) foi criada com o objetivo de defender as regiões habitadas pelos curdos no norte do país. Eles se fortaleceram a ponto de dominar um grande território próximo da fronteira turca na atualidade. São considerados úteis ao regime de Assad, pois se opõe tantos aos rebeldes moderados quanto aos extremistas do Estado Islâmico.

Existem provas de que todas as partes envolvidas cometeram crimes de guerra (assassinato, tortura, estupro e desaparecimentos forçados). Tanto quanto foram acusadas de causar sofrimento civil, por promover bloqueios que impedem fluxo de alimentos e serviços de saúde, como tática de confronto. 

Em 2014, devido ao avanço do Estado Islâmico no ganho de territórios, os Estados Unidos fizeram ataques aéreos na Síria em tentativa de enfraquecê-lo, evitando ataques que pudessem beneficiar as forças de Assad. Assim começou uma campanha aérea no Iraque e na Síria, com apoio de Canadá, França, Reino Unido e vários países árabes.

Em 2015, a Rússia fez o mesmo contra terroristas na Síria, mas ativistas da oposição dizem que os ataques têm matado civis e rebeldes apoiados pelo Ocidente. A Síria é um importante comprador de armamentos da Rússia, e oferece ainda ao país a base naval de Tartus, única instalação russa no mar Mediterrâneo.

Em julho de 2015, uma trégua entre o governo turco e o PKK foi interrompida após um atentado suicida em Suruc, povoado curdo em território turco, perto da fronteira com a Síria. Os curdos atribuíram o atentado, que deixou 32 mortos, a uma suposta conspiração entre Ancara e Estado Islâmico, algo que a Turquia nega.

Por que a Síria é o território de fogo cruzado dessa guerra fria?

Rússia e os Estados Unidos querem o fim do Estado Islâmico. Porém, os Estados Unidos querem a queda do governo de Bashar Al-Assad, pois considerarem que seu regime não-democrático é prejudicial à Síria e, por isso apoia os rebeldes; por outro lado, a Rússia acredita na força de Assad e está apoiando seu regime. 

Aliados e inimigos  

Os EUA estão em desacordo com a Rússia pelo destino do presidente Assad, aliado de Moscou que Washington deseja fora do poder. Um dos aliados ocidentais dos Estados Unidos é a França e outros países com diferentes níveis de envolvimento são Irã, Turquia e nações do Golfo Pérsico. Ocorreu uma inesperada aproximação entre EUA e Irã, unidos pela aversão a extremistas sunitas, todavia distanciados pelo apoio iraniano a Assad e à guerrilha libanesa Hezbollah, considerada organização terrorista pela Casa Branca. Integram a coalizão liderada pelos EUA: Bahrein, Jordânia, Catar e Emirados Árabes Unidos, todos em linha com a atuação saudita.

O Irã é aliado histórico do governo de Assad, a quem fornece armas, apoio militar e financeiro. Para o esse país, a subordinação de Assad é chave para impor freio à influência de seu grande rival na região

Arábia Saudita, que por sua vez, se opõe a Bashar Al-Assad e apoia os rebeldes sunitas. É uma potência sunita e grande rival do Irã, integra desde o início a coalizão liderada pelos EUA para atacar o Estado Islâmico. 

Turquia, de maioria sunita, é outra potência da região. Apoia a coalizão liderada pelos EUA e rebeldes. Seu envolvimento no conflito do país vizinho começou ao apoiar ao Exército Livre da Síria, um dos principais movimentos rebeldes contra Assad. Esse país ataca posições de milícias curdas na Síria, as Unidades de Proteção do Povo Curdo (YPG), braço armado do Partido da União Democrática (PYD), aliado tradicional do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), perseguido há 30 anos na Turquia por buscar autonomia curda no país. Em paralelo, o governo turco conserva boas relações com o Governo Regional do Curdistão no Iraque (KRG), os peshmerga (forças armadas do KRG) e o Partido Curdo no Iraque (KDP). Enquanto isso, no teatro de operações na Síria e no Iraque, curdos turcos, curdos iraquianos e governo turco estão contra o Estado Islâmico.

Segundo a BBC, a estratégia da Turquia para Kerem Oktem (professor da Universidade de Graz, na Áustria) é "simular que luta uma guerra contra o Estado Islâmico e perseguir outra meta, que é destruir o PKK". Em entrevista à BBC, Cemil Bayik (líder do PKK) disse que a Turquia ataca forças curdas para evitar que combatam o Estado Islâmico. Ele diz acreditar - e há outras opiniões nesse sentido - que Ancara esteja protegendo o Estado Islâmico em vez de combatê-lo.

A Convenção de Genebra de 1951, define refugiado a “pessoa que foge em função de um bem embasado medo de perseguição devido à raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social, ou opinião política”.

Motivo pelo qual a maioria se refugia na Europa

Muitos fugiram em busca de abrigo nos países da Europa, África e Oriente Médio. A Europa é mais visada pelos refugiados, porque o nível de vida nesses países é superior quando comparados à África e ao Oriente Médio. Outra razão, é pela facilidade geográfica na passagem de um continente para o outro que estimula a imigração e o intercâmbio entre as nações. Deve-se considerar que os países que hoje possuem grandes setores da sua população se dirigindo à Europa na fuga de guerras ou em busca de oportunidade, são os mesmos países que foram colonizados pelos próprios europeus na segunda grande onda colonizadora e imperialista moderna: aquela que começa no fim do século XVIII e se intensifica no século XIX pelas grandes potências capitalistas (Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, etc.)

Sírios refugiados no Brasil

Os dados do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), do Ministério da Justiça, mostram que em cada quatro refugiados no Brasil um é sírio.(G1). O número de concessões de refúgio aos sírios em 2015 representa 43% do total de solicitações aceitas (1.231). 

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